Propaganda e interdisciplinaridade : Parte 6 Anexo 3 Ciência

Propaganda e interdisciplinaridade : Parte 6 Anexo 2 Arte
26/08/2014
Propaganda e interdisciplinaridade : Parte 6 Anexo 4 Técnica
26/08/2014

 

CIÊNCIA E CIENTIFICIDADE – CONCEITUAÇÃO ABBAGNANO, Nicola. DICIONÁRIO DE FILOSOFIA. São Paulo: Mestre Jou, 1982.

CIÊNCIA (gr.lat. Scientia, ingl. Science; franc. Science, al. Wissenschafi). (P. 126)
Um conhecimento que inclua, em qualquer forma ou medida, uma garantia da própria validade. A limitação expressa pelas palavras “em qualquer forma ou medida” inclui-se aqui para tornar a definição aplicável à C. moderna que não tem pretensões de absoluto.

Mas o conceito tradicional da C. aquele pelo qual a C. inclui uma garantia absoluta de validade e é, portanto, como conhecimento, o grau máximo da certeza. O oposto da C. a opinião (v.), caracterizada justamente pela falta de garantia acerca da sua validade. As diferentes concepções da C. podem-se distinguir conforme a garantia de validade que se lhe reconhece. Essa garantia pode consistir: 1. na demonstração; 2. na descrição; 3. na corrigibilidade.

1.- A doutrina segundo a qual a C. provê a garantia da própria validade demonstrando as suas afirmações, isto é, coligando-as em um sistema ou em um organismo unitário no qual cada uma delas seja necessária e nenhuma possa ser retirada, anexada ou mudada, é o ideal clássico da ciência. Platão comparava a opinião (v.) às estátuas de Dédalo que estão sempre prestes a fugir: as opiniões, de fato, “desertam da alma humana, de modo que não têm grande valor enquanto alguém não logra vinculá-las por um raciocínio causal”. Mas “desde que sejam vinculadas, tornam-se C. e permanecem fixas. Eis porque a C. (conclui Platão) é mais válida que a reta opinião e difere desta pela sua conexão” (Meno, 98 a). A doutrina da C. de Aristóteles é muito mais rica e circunstanciada, mas obedece ao mesmo conceito. A C. é “conhecimento demonstrativo”. Por conhecimento demonstrativo entende-se aquele pelo qual “se conhece a causa de um objeto, isto é, se conhece porque o objeto não pode ser diferente do que é” (Na. pr. I, 2, 71 b 9 segs.). Em conseqüência, o objeto da C. é o necessário (v.); e portanto a C. se distingue da opinião e não coincide com ela; se coincidisse, “estaríamos convencidos de que um mesmo objeto pode comportar-se diferentemente de como se comporta e estaríamos, ao mesmo tempo, convencidos de que não pode comportar-se diferentemente” (An. Post. I, 33, 89 a 38). Por isso, Aristóteles exclui que possa haver C. do não necessário: da sensação (lbid., 31, 87 b 27) e do acidental (Met. VI, 2, 1027 a 20) , enquanto identifica o conhecimento científico com o conhecimento da essência necessária ou substân cia (lbid., VIII, 6, 1031 b 5). A mais perfeita realização desse ideal da C. foram os Elementos de Euclides (séc. III a.C.). Essa obra, que quis realizar a matemática como C. perfeitamente dedutiva, sem nenhum apelo à experiência ou à indução, permaneceu por muitos séculos (e sob certos aspectos permanece até hoje) como o próprio modelo da ciência. Através dos Elementos de Euclides, a concepção da C. de Platão e de Aristóteles se transmitiu mais eficazmente que através do delineamento teórico de Aristóteles. De tal delineamento não se afastaram os Antigos. Os Estóicos repetiram-no afirmando que “a C. é a compreensão segura, certa e imutável fundada na razão” (SEXTO E., Adv. Math., VII, 151 ), ou que ela “é uma compreensão segura ou um hábito imutável de acolher representações, fundado na razão” (DIÓG. L., VII, 47). S. Tomás repetia as notações aristotélicas (S. Th., II, 1, q. 57, a. 2) e Duns Escoto acentuava o caráter demonstrativo e necessário da C. excluindo dela todo conhecimento desprovido daqueles caracteres, portanto, o inteiro domínio da fé (Op. Ox., Prol., q. 1 n. 8). Mesmo a última escolástica, com Ockham, mantinha em pé o ideal aristotélico da C. (In Sent., III, g. 8). O aparecimento da C. moderna não pôs em crise esse ideal. De um lado, o necessitarismo dos aristotélicos é compartilhado mesmo pelos seus adversários; de outro, persiste a sugestão da matemática como C. perfeita pela sua organização demonstrativa; e Galilei, mesmo, colocava as “demonstrações necessárias” ao lado da “sensata experiência” como fundamento da C. (Opere, V. pág. 316). O ideal geométrico da C. domina também as filosofias de Descartes e Espinosa. Descartes queria organizar todo o saber humano sobre o modelo da aritmética e da geometria: as únicas C. que ele reconhecia “desprovidas de falsidade e de incerteza” porque fundadas inteiramente na dedução (Regulae ad directionem ingenii, 11). E Espinosa chamava C. intuitiva, a extensão do método geométrico ao universo inteiro, extensão pela qual “da idéia adequada da essência formal de alguns atributos de Deus, se procede ao conhecimento adequado, da essência das coisas” (Et., II,.40. scol. 2o). Kant assinalava esse velho ideal com um novo termo, o de sistema (v.). “A unidade sistemática, dizia ele, é o que antes de tudo faz de um conhecimento comum uma C., isto é, de um simples agregado, um sistema”; e acrescia que por sistema, é preciso entender “a unidade de conhecimentos Múltiplos recolhidos sob uma única idéia” (Crít. R. Pura, Doutrina do método, cap. III; cfr. Metaphisische Anfangsgründe der Naturwissenschaft, Prefácio). Esse conceito da C. como sistema, introduzido por Kant, tornou-se lugar comum da filosofia do séc. XIX, e é ainda aquele a que recorrem as filosofias de caráter teológico ou metafísico. Isso aconteceu, sobretudo, porque o Romantismo o fez seu e o repetiu até à saciedade. Dizia Fichte. “Uma C. deve ser uma unidade, um todo. . . As proposições singulares em geral não são C., mas tornam-se C. só no todo, graças a seu lugar no todo, à sua relação com o todo” (Ueber den Begriff der Wissenschaftslehre. 1 794, § 1). Scheiling repetia: “Admite-se, geralmente, que convém à filosofia uma forma peculiar a ela, que se diz sistemática. Pressupor uma tal forma não deduzida compete a outras C. que já pressupõe a C. da C., mas não a esta que se propõe por objeto a possibilidade de uma semelhante C.” (System des transzendentalen Idealismus, 1800, I, cap. I; trad. ital., pág. 27). E Hegel afirmava peremptoriamente: “A verdadeira forma na qual existe a verdade pode ser somente o sistema científico dela. Colaborar para que a filosofia se aproxime da forma da C. – isto é, da meta, alcançada a qual ela possa abandonar o nome de amor do saber para ser verdadeiro saber – eis aquilo a que me propus” (Phänom. des Ceistes. Prefácio, I, 1). Fichte, Schelling e Hegel consideravam que o único saber sistemático, logo, C. única, fosse a filosofia. Mas o conceito de sistema permaneceu caracterizando a C. em geral, mesmo a C. da natureza, para muitos filósofos do século XIX. H. Cohen via no sistema a mais alta categoria da natureza e da C. (Logik, 1902, pág. 339). Husserl repunha o caráter essencial da C. na “unidade sistemática” que nela encontram os conhecimentos singulares e os seus fundamentos (Logische Untersuchugen, 1900, I, pág. 15); e indicava no sistema o próprio ideal da filosofia, se essa quiser organizar-se como “C. rigorosa” (Philosophie als strenge Wissenschaft, 1910-11 , trad. ital., pág. 5). O ideal da C. como sistema continuou a viver ainda muito tempo depois que as C. naturais dele se afastaram e começaram a polemizar contra “o espírito de sistema”. Se pode-se hoje considerar superado o ideal clássico da C. como sistema perfeito de verdades necessárias, ou por evidência, ou por demonstração, não se podem todavia considerar superadas todas as suas características. Que a C. seja, ou tenda a ser, um sistema, uma unidade, uma totalidade organizada, é pretensão, às vezes, partilhada também pelas outras concepções da própria C. O que essa pretensão conserva, em todo caso, de válido é a exigência de que as proposições que constituem o corpo lingüística de uma C. sejam, entre si, compatíveis, isto é, não contraditórias. Essa exigência, sem dúvida, é muito mais fraca do que a que desejaria que tais proposições constituíssem uma unidade ou um sistema; aliás, falando com rigor, é uma exigência totalmente diversa, pois a não contraditoriedade não implica absolutamente a unidade sistemática. Todavia, na linguagem científica ou filosófica usual, não raro a exigência sistemática é reduzida à da compatibilidade.

2. A concepção descria da C. se veio formando a partir de Bacon e por obra de Newton e dos filósofos iluministas. O seu fundamento é a distinção baconiana entre antecipação e interpretação da natureza. consistindo a interpretação em “conduzir os homens diante dos fatos particulares e das suas ordenações” (Nov. Org., I, 26, 36). Newton estabelecia o conceito descritivo da C. contrapondo o método da análise ao método da síntese. – Este último consiste “em assumir que as causas foram descobertas, em pô-las como princípios e em explicar os fenômenos procedendo de tais princípios e considerando como prova essa explicação”. A análise, ao contrário, consiste “em fazer experimentos e observações, em tirar conclusões gerais destes por meio da indução e em não admitir, contra as conclusões, objeções que não sejam derivadas dos experimentos ou de outras verdades seguras” (Opticks, III, I, q. 31 ). A filosofia do iluminismo exaltou e difundiu o ideal científico de Newton. “Esse grande gênio, dizia D’Alembert, viu que era tempo de expulsar da física as conjecturas e as hipóteses vagas, ou pelo menos de tê-las apenas pelo que valem, e de submeter essa C. somente às experiências e à geometria” (Discours prélimninaire de I’Encyclopédic, em (Euvres, ed. Condorcet, pág. 143). Ao mesmo tempo, D’Alembert declarava então inútil, para a C. e para a filosofia, o espírito de sistema. “Todas as C., dizia ele, encerradas, no que é possível, nos fatos e nas conseqüências que delas se podem deduzir, não concedem nada à opinião, exceto quando a isto são obrigadas”. A C. reduz-se assim à observação dos fatos e às inferências ou aos cálculos fundados nos fatos. O positivismo oitocentista não fazia mais que apelar para o mesmo conceito da ciência. Dizia Comte- “O caráter fundamental da filosofia positiva é o de considerar todos os fenômenos como sujeitos a leis naturais invariáveis, cuja descoberta precisa e cuja redução ao número mínimo possível são o objetivo de todos os nossos esforços, ao passo que julgamos absolutamente inacessível e sem sentido a pesquisa do que se chama de causas, tanto primeiras como finais” (Cours de phil. positive, I, § 4; vol. 1, págs. 26-27). Mas o positivismo insistiu também naquele caráter da C. que já Bacon pusera a nu: o caráter ativo ou operacional, pelo qual ela permite ao homem agir sobre a natureza e dominá-la mediante a previsão dos fatos, possível graças às leis (lbid., II, § 2; pág. 100). O ideal descritivo da C. não implica, portanto, que a C. consista no espelhamento ou na reproducão fotográfica dos fatos. De um lado, o caráter antecipador do conhecimento científico pelo qual ela se concretiza em previsões fundadas nas relações verificadas entre os fatos lhe tira o caráter fotográfico: não se pode, na verdade, fotografar o futuro. De outro, a mesma C. positivista iluminou o caráter ativamente orientado da descrição científica. As considerações de Claude Bernard são, nessa linha, -particularmente importantes: “A simples constatação dos fatos, diz ele, nunca alcançará constituir uma ciência. Podem-se multiplicar os fatos e as observações, mas isso não fará aprender nada. Para instruir-se é necessário raciocinar sobre o que se observou, comparar os fatos e julgá-los com outros fatos que servem de controle” (Intr. à 1’élude de la médecine expérimentale, 1 865, I, 1, § 4). Desse ponto de vista, uma C. de observação será uma C. que raciocina sobre os fatos da observação natural, isto é, sobre os fatos pura e simplesmente constatados-, ao passo que uma C. experimental ou de experimento raciocinará sobre os fatos obtidos nas condições que o experimentador criou e determinou (lbid., 1865, I, 1, § 4). A doutrina da C. de Mach não poderia chamar-se descritiva, se por descrição se entendesse a reprodução fotográfica dos objetos, mas se pode chamar descritiva no sentido já esclarecido. Diz Mach: “Se excluímos o que não tem sentido pesquisar, veremos aparecer mais nitidamente o que podemos realmente atingir mediante as C. particulares.- todas as relações e os, diferentes modos de relação dos elementos entre si” (Erkenntniss und Irrtum, cap. I; trad. franc., pág. 25). A inovação de Mach consiste no seu conceito dos elementos: tais elementos são para ele comuns tanto às coisas como à consciência, e diferentes na consciência e na coisa só enquanto pertencentes a conjuntos diversos (lbid., cap. I; trad. franc.. pág. 25; cfr. Die Analyse der Empfindungen, 9a ed., 1922, pág. 14). A função econômica que Mach atribuiu à C. ou, mais precisamente aos conceitos científicos, não tira portanto o caráter descritivo da C., reconhecível na tese de que a C. tem por objeto as relações entre os elementos. justamente porque a C. considera as relações entre os fatos, ela é uma descrição abreviadora e econômica dos próprios fatos (Die Mechanjk; trad. ingl., 1902. págs. 481 segs.). Do mesmo modo, Bergson reconhece o caráter convencional e econômico da C. pelo fato de que ela, que tem como seu órgão a Inteligência, se detém não sobre as coisas mas sobre as relações entre as coisas ou situações (Év. créalr., 8a. ed., 1911, págs. 161, 356). O ideal descritivo da C. recorre ainda em escritores recentes. Dewey afirma: “Na C., como os significados são determinados na base da sua relação recíproca como significados, as relações tornam-se os objetos da indagação e as qualidades são assim diminuídas em importância, revestindo uma função só enquanto ajudam a estabelecer relações” (Logic, VI, § 6; trad. ital., pág. 171). Ora, as relações são apenas outro nome para leis, já que a lei não é senão a expressão de uma relação: de modo que o mesmo conceito da S. pode-se encontrar em todos os escritores que reconhecem na formulação da lei a tarefa da ciência. Dizia H. Dingler: “A tarefa principal da C. consiste em alcançar leis no maior número possível” (Die Methode der Physik, 1937, 1, § 9). E mais recentemente R. B. Braithwaite afirmou: “O conceito fundamental da C. é o da lei científica, e o objetivo fundamental de uma C. é o estabelecimento de leis. Para compreender o modo pelo qual opera uma C. e o modo pelo qual ela fornece explicações dos fatos que investiga, é necessário compreender a natureza das leis científicas e o modo de estabelecê-las” (Scientific Explanation, Cambridge, 1953, pág. 2).

3. Uma terceira concepção é a que reconhece como garantia única da validade da C. a sua autocorrigibilidade. Trata-se de uma concepção que apontou nas vanguardas mais críticas ou menos dogmáticas da metodologia contemporânea e ainda não alcançou os desenvolvimentos assumidos pelas duas concepções precedentes; mas que é todavia significativa, seja porque parte do abandono de toda pretensão à garantia absoluta, seja porque abre novas perspectivas ao estudo analítico dos instrumentos de pesquisa de que as C. dispõem. O pressuposto dessa concepção é o falibilismo (v.) que Peirce reconhecia como próprio de todo conhecimento humano (Coll. Pap., I, 13, 141-52). Mas a tese em foco foi expressa pela primeira vez por Morris R. Cohen- “Podemos definir a C. como um sistema autocorretivo A C. convida à dúvida. Ela pode desenvolver-se ou progredir não só porque é fragmentária, mas também porque nenhuma proposição sua é em si mesma absolutamente certa, e assim o processo de correção pode operar quando encontramos provas mais adequadas. Mas é preciso notar que a dúvida e a correção se acham sempre de acordo com os cânones do método científico de modo que este é o seu liame de continuidade” (Studies in Philosophy and Science, 1949, pág. 50). M. Black adotou mais recentemente um ponto de vista análogo. “Os verdadeiros princípios do método científico devem, eles mesmos, ser considerados como provisórios e sujeitos a correções ulteriores, de modo que uma definição de “método científico” seria verificável em um sentido extenso do termo” (Problems of .4nalpsís, 1954, pág. 23). Em termos aparentemente paradoxais, mas equivalentes, K. Popper afirmara, na Lógica da Pesquisa (1935), que o instrumental da C. se volta, não para a verificação, mas para a falsificação das proposições científicas. “O nosso método de pesquisa, dizia ele, não é destinado a defender as nossas antecipações para provar que temos razão, mas, ao contrário, é destinado a destruí-las. Usando todas as armas do nosso armamento lógico, matemático e técnico, tentamos provar que as nossas antecipações são falsas, para apresentar, no lugar delas, novas injustificadas e injustificáveis antecipações, novos “grosseiros e prematuros preconceitos” como Bacon derrisoriamente as chamava” (The Logic of Scienfific Discover_v. 2.N ed., 1958, § 85, pág. 279). Com isso, Popper pretendeu assinalar o abandono do ideal clássico da C.: “O velho ideal científico da episteme, do conhecimento absolutamente certo e demonstrável, revelou-se um ídolo. A exigência da objetividade científica torna inevitável que toda asserção científica permaneça para sempre uma tentativa”. O homem não pode conhecer, mas só conjecturar (lbid., págs. 278, 280). Afirmar que os instrumentos de que a C. dispõe, se destinam a demonstrar falsas as asserções da C. é um outro modo de exprimir o conceito da autocorrigibilidade da C.: provar como falsa uma asserção significa, de fato, substituí-la por uma outra asserção, não ainda provada como falsa, logo corretiva da primeira. A noção da autocorrigibilidade constitui sem dúvida a garantia menos dogmática, que a C. pode exigir, da própria validade. Ela permite uma análise menos preconceituosa dos instrumentos de verificação e de controle de que dispõem cada C.

CIÊNCIA, DOUTRINA DA (ingl. Science of Science; franc. Doctrine de la science; al. Wissenschaftslehre). (P. 129)

Expressão pela qual Fichte designou a S. das C. em geral”, isto é, a C. que expõe de modo sistemático o princípio fundamental em que se apoiam todas as outras ciências. “Toda C. possível tem um princípio fundamental que nela não pode ser demonstrado, mas deve ser já certo antes dela. Ora, onde deve ser demonstrado esse princípio fundamental? Sem dúvida naquela C. que deve fundar todas as C. possíveis” (Über den Begriff der Wissenschaftslehre, 1794, § 2; trad. ital., págs. 11-12). Fichte identificava a doutrina da S. e a filosofia, vendo o seu princípio fundamental no Eu.

A expressão é ainda hoje usada quase sempre em relação a Fichte. Todavia, B. Bolzano adotou como título de uma obra para indicar a doutrina que expõe as regras para a divisão do campo do próprio saber (Wissenschaftslehre, 1837. 1, § 6; efr. IV, § 392 segs.). Mas, para a disciplina que considera as formas ou os processos do conhecimento científico têm sido usadas mais freqüentemente as palavras gnosiologia (v.) e melodologia (v.).

CIÊNCIAS, CLASSIFICAÇÃO DAS (ingl. Classification of Sciences; franc. Classification des sciences; al. Klassifikation der Wissenschafte). (P. 130)

Ao passo que uma enciclopédia (v.) é a tentativa de dar o quadro completo de todas as disciplinas científicas e de fixar de modo definitivo as suas relações de coordenação e subordinação, uma classificação das C. tem só o intento mais modesto de dividir as C. em dois ou mais grupos, segundo a afinidade dos seus objetos ou dos seus instrumentos de pesquisa. É óbvio que também as enciclopédias das C. podem considerar-se como simples classificações; mas muito mais eficazes, em relação ao mesmo labor científico foram algumas classificações simples apresentadas pelos filósofos do século XIX. A mais famosa de todas é a proposta por Ampère, de C. do espírito, ou noológicas, e C. da natureza, ou cosmológicas (Essai sur la philosophie des sciences, 1834). Essa classificação foi aceita extensamente e às vezes reexpressa com outros termos, por ex., como distinção entre C. culturais e C. naturaís (Du Bois-REYMOND, Kulturgeschichte und Naturwissenschaften, 1878). Para a sua difusão contribuiu sobretudo Dilthey que, na Introdução às Ciências do Espírilo (1883), insistiu na diferença entre as ciências que visam a conhecer causalmente o objeto, o qual permanece externo, isto é, as C. naturais, e as que, ao contrário, visam a compreender o objeto (que é o homem), e a revivê-lo intrinsecamente, isto é, as C. do espírito. Windelband, por sua vez, distinguia entre ‘C. nomoléticas, que procuram descobrir a lei e dizem respeito à natureza; e C. idiográficas, que têm, ao contrário, por alvo o singular na sua forma historicamente determinada, e por objeto a história (Ceschichte und Naturwissenschaften, 1894, e depois nos Präludien). De modo mais logrado Rickert exprimia a mesma diferença afirmando que as C. da natureza têm caráter generalizante, ao passo que as C. do espírito têm caráter indi-vidualizante (Die Crenzen der naturwissenschaftlichen Begriffsbildung, 1896-1902, págs. 236 segs.) (V. HISTORIGRAFIA).

De outro ponto de vista, Comte distinguira duas espécies de C. naturais: as C. abstratas ou gerais, que têm por objeto a descoberta das leis que regulam as diferentes classes dos fenômenos, e as C. concretas, particulares, descritivas, que consistem na aplicação dessas leis à história efetiva dos diferentes seres existentes (Cours de phil. positive, 1830, I, 11, § 4). Spencer retomava essa distinção e, por sua vez, dividia todas as C. em abstraías (lógica formal e matemática), abstrato- concretas (mecânica, física, química) e concretas (astronomia, mineralogia, geologia, biologia, psicologia, sociologia) (The Classification of lhe Sciences, 1864). E Wundt simplificava essa classificação reduzindo-a a dois grupos apenas: o das C. formais (lógica e matemática) o das C. reais (as C. da natureza e do espírito) (System der Philosophie, 1889). Pouco diferente desta é a classificação triádica de Ostwald em C. formais, C. físicas e C. biológicas (Gundriss der Naturphilosophie, 1908). A distinção entre C. formais e C. reais é ainda largamente aceita. R. Carnap a repropôs com o fundamento de que as C. formais conteriam só asserções analíticas e as C. reais, ou factuais, conteriam também assercões sintéticas (em Erkenntniss, 1934, ri. 5; agora em Readings in lhe Philosophy of Science, 1953, pág. 123 segs.). Assim interpretada, a classificação deixa, como nota Carnap, intacta a unidade da C., pois, “as C. formais não têm absolutamente objeto: são sistemas de asserções auxiliares sem objeto e sem conteúdo” (ibid., pág. 128).

Essas últimas palavras de Carnap explicam-se tendo em mente que não se pode dar, hoje, um caráter absoluto ou rigoroso à distinção entre as várias C. As palavras seguintes de von Mises exprimem bem o ponto de vista mais corrente sobre o ponto de vista mais corrente sobre o assunto: “Toda repartição e subdivisão das C. tem só uma importância prática e provisória, não é sistematicamente necessária e definitiva, isto é, depende das situações externas em que se cumpre o trabalho científico e da fase atual de desenvolvimento das disciplinas isoladas. Os progressos mais decisivos originaram-se, freqüentemente, do esclarecimento de problemas que se encontram no confim de setores até então tratados separadamente” (Kleines Lehrbuch des Positivismus, 1939,-V. 7).

 

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1999. 2128 p. 

CIÊNCIA (P. 469) [Do lat. scientia.] S. f.

  1. Conhecimento (3): tomar ciência.
  2. Saber que se adquire pela leitura e meditação; instrução, erudição, sabedoria.
  3. Conjunto de conhecimentos socialmente adquiridos ou produzidos, historicamente acumulados,

dotados de universalidade e objetividade que permitem sua transmissão, e estruturados com métodos, teorias e linguagens próprias, que visam compreender e, poss., orientar a natureza e as atividades humanas.

4. Campo circunscrito, dentro da ciência (3), concernente a determinada parte ou aspecto da natureza ou das atividades humanas, como, p. ex., a química, a sociologia, etc.
5. A soma dos conhecimentos humanos considerados em conjunto: os progressos da ciência em nossos dias.

6. Pop. Habilidade intuitiva, sabedoria: “A ciência da aranha, da abelha e a minha, muita gente desconhece” (Luiz Vieira e João do Vale, da canção popular Na Asa do Vento).

Ciência aplicada.
1. Ciência (3) que é produzida com a intenção de ser aplicada a objetivos práticos. [Cf. tecnologia e ciência pura.]

Ciência básica.
1. Ciência (3) que trata dos aspectos mais gerais ou fundamentais da realidade, ger. sem preocupação com as suas aplicações práticas a curto prazo.
2. Ciência (3) que tem participação fundamental nos conhecimentos necessários ao exercício de um campo de atividade: a anatomia, a bioquímica, etc.

Ciência cristã.
1. Misto de religião e medicina mental, fundada em 1866 nos E.U.A. por Mary Baker-Eddy (1821- 1910).

Ciência da computação. Inform.
1. Disciplina que estuda o projeto, a operação, o uso e a programação de computadores, aliando aspectos da matemática, da lógica, da engenharia e da teoria da informação.

Ciência infusa.
1. A que se supõe vinda de Deus por inspiração.

Ciência pura.
1. Ciência (3) em que a investigação é feita sem qualquer preocupação com a aplicação. [Cf. ciência aplicada.]

Ciências biológicas.
1. Biol. O conjunto das ciências [ v. ciência (4) ] cujos conhecimentos são fundamentalmente orientados para o estudo da biologia, ou são derivados dela: a biologia, a biofísica, a farmacologia, etc.

Ciências contábeis.
1. O conjunto das ciências aplicadas, ou afins, ou derivadas, ou que contribuem fundamentalmente para a contabilidade (1): a contabilidade e a administração.

Ciências da natureza.
1. Ciências naturais.

Ciências da saúde.
1. O conjunto das ciências básicas (2) e aplicadas que tratam da saúde humana e animal: a medicina, a odontologia, a veterinária, etc.

Ciências da Terra.
1. As ciências [ v. ciência (4) ] que tratam do meio físico ao redor do homem: a oceanografia, a geologia, a geografia física, a climatologia, etc.; geociências.

Ciências da vida.
1. O conjunto formado pelas ciências biológicas e da saúde.

Ciências econômicas. 1. Economia (1).

Ciências empíricas.
1. As ciências [v. ciência (4)] que são formadas pela observação da natureza e por teorias e hipóteses que podem ser com ela diretamente confrontadas. [Cf. ciências formais.]

Ciências exatas.
1. As ciências [ v. ciência (4) ] que se baseiam em teorias, normalmente expressas matematicamente, capazes de fornecer conceitos precisos.

Ciências experimentais.
1. Aquelas cujo método exige o recurso da experimentação.

Ciências físicas.
1. A física, a química, e ciências afins, como a meteorologia, a hidrologia, a geologia.

Ciências formais.
1. As ciências [v. ciência (4)] que têm como objetivo de estudo sistemas matemáticos, lógicos e similares, que não se referem, diretamente, à realidade física. [Cf. ciências empíricas.]

Ciências humanas.
1. As ciências [ v. ciência (4) ] que têm como objetivo de estudo o comportamento do homem e os fenômenos culturais humanos: a psicologia, a antropologia, a história, a sociologia, etc.

Ciências jurídicas.
1. O conjunto das ciências derivadas do direito (13), ou fundamentalmente influenciadas por ele: o direito internacional, o direito criminal, etc.

Ciências lingüísticas.
1. A lingüística e a fonética.
2. Aquelas que tratam da linguagem e das línguas, como a lingüística, a lingüística aplicada, a neurolingüística, a psicolingüística e a sociolingüística.

Ciências matemáticas.
1. As ciências [v. ciência (4)] em que as investigações fazem uso da matemática, ou são fundamentalmente influenciadas por ela, ou são dela derivadas: a matemática, a estatística, a física teórica, etc.

Ciências morais.
1. As que estudam os sentimentos, pensamentos e atos do homem, aquilo que constitui o espírito humano.

Ciências naturais.
1. As ciências [v. ciência (4)] que têm como objetivo de estudo a natureza em torno do homem, sendo este incluído apenas na condição de animal natural: a física, a química, a astronomia, a geologia, a biologia. [Cf. história natural.]

Ciências normativas.
1. Aquelas que, como a lógica e a moral, traçam normas ao pensamento e à conduta humana.

Ciências ocultas.
1. Ocultismo (1).

Ciências políticas.
1. O conjunto das ciências que estudam a organização e o funcionamento do Estado, e as interações dos grupos nele existentes: a política, a sociologia, etc.

Ciências sociais.
2. As ciências [v. ciência (4)] que têm como objetivo de estudo os grupos humanos: a sociologia, a

antropologia, a geografia humana, a história, a lingüística, a pedagogia, a psicologia social.

JAPIASSÚ, Hilton, MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990. 265 p.

CIÊNCIAS E VALORES (P. 49)
A ciência não pode ser considerada como um saber absoluto e puro, cuja racionalidade seria

totalmente transparente e cujo método seria a garantia de uma objetividade incontestável. Não constitui um mundo à parte, uma espécie de reino isolado onde os cientistas fariam “pesquisas puras”, desinteressadas, preocupadas apenas com a busca do conhecimento verdadeiro.

Evidentemente, eles trabalham para construir conhecimentos tão rigorosos, racionais e objetivos quanto possível: referem-se a normas racionais, testam suas teorias confrontando-as com a experiência. Contudo, na prática, as coisas se complicam, e as pesquisas nem sempre possuem a transparência e a objetividade que, de bom grado, lhes emprestamos.

As idéias científicas não são totalmente independentes da filosofia, da religião e das ideologias que impregnam o meio em que vivem os pesquisadores.

Por isso, é muito questionável o chamado “princípio da neutralidade”, ou seja, o princípio segundo o qual os cientistas estariam isentos, imunes, em nome de sua racionalidade objetiva, de formular todo juízo de valor, de manifestar toda e qualquer preferência pessoal, de ser responsáveis por toda e qualquer decisão de ordem política ou implicando questões de tipo ético, posto que, por seu objetivo, seu conhecimento seria universal, válido em todos os tempos e lugares, para além das sociedades e das formas de cultura particulares.

CIENTIFICIDADE (P. 49)
Este termo evoca os critérios permitindo-nos definir o que constitui realmente um conhecimento científico e distingui-lo claramente das outras formas de saber não-científicas. Dois são os critérios mais correntes: o recurso à dedução racional e o recurso à verificação experimental.

Só há conhecimento científico a partir do momento em que podemos repetir determinado fenômeno ou podemos prever com certeza o aparecimento desse fenômeno quando se encontram reunidas determinadas condições. Insatisfeito com o critério da verificabilidade, defendido pelos empiristas lógicos, segundo o qual uma teoria só é científica quando é suscetível de urna verificação experimental real ou possível, Karl Popper propõe o critério demarcatório entre o científico e o não- científico.

Trata-se do critério da refutabilidade, da Estabilidade ou da falsificabilidade. Quer dizer: uma teoria só é científica quando pode ser refutada pela experiência. Se a física é uma verdadeira ciência, é porque faz predições que a experiência, em princípio, pode contradizer. A psicanálise, em contrapartida, aparece como não-científica, pois os “fatos” a confirmam sempre. Assim, a refutabilidade constitui o verdadeiro critério de demarcação entre o científico e o não-científico, quer dizer, o verdadeiro critério de cientificidade: de um lado, temos teorias suscetíveis de serem refutadas experimentalmente; do outro, aquelas que resistem aos testes experimentais; as primeiras são teorias científicas, as segundas são teorias metafísicas.

CIENTIFICISMO (P. 49)

Este termo designa a ideologia daqueles que, por deterem o monopólio do saber objetivo e racional, julgam-se os detentores do verdadeiro conhecimento da realidade e acreditam na possibilidade de uma racionalização completa do saber. É muito mais uma atitude prática acreditando que “fora da ciência não há salvação”, porque ela teria descoberto a fórmula laplaciana do saber verdadeiro. Essa atitude está fundada em certas normas latentes que se expressam em três “artigos de fé”: 1) a ciência é o único saber verdadeiro; logo, o melhor dos saberes; 2) a ciência é capaz de responder a todas as nossas questões teóricas e de resolver todos os nossos problemas práticos, desde que sejam bem formulados, quer dizer, positiva e racionalmente; 3) não somente é legítimo, mas sumamente desejável que seja confiado aos cientistas e aos técnicos o cuidado exclusivo de dirigirem todos os negócios humanos e sociais: como somente eles sabem o que é verdadeiro, somente eles podem dizer o que é bom e justo.

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