VIVA A SUÉCIA. POBRE BRASIL (EMEDIATO, L. F., 2014)

Ref Bibliográficas
20/03/2015
Eleições e Espetáculo na Am. Latina – ECL028 (2018 1)
10/09/2015

EMEDIATO, L. F. Viva a Suécia. Pobre Brasil ! Prefácio. In: WALLIN Claudia. Um País sem excelências e mordomias. São Paulo: Geração, 2014. 343 p.

um pais sem excelenciasA incipiente democracia brasileira vive uma situação sui generis. Ser político e alto servidor público transformou-se numa profissão que confere à pessoa enormes confortos e mordomias e altíssimos lucros. Empresários podem ser ministros, ou ministros ou altos secretários se transformam em banqueiros, depois de seus controvertidos mandatos. Deputados e senadores costumam ser empresarios ou delegados de corporações empresariais e agrárias.

O sistema de governo é de República Presidencialista, com um Executivo, um Legislativo e um Judiciario, mas que coisa estranha, o Judiciário legisla, o Legislativo participa do Executivo, nomeando ministros, secretários e altos funcionários de bancos e estatais, e o Executivo também legisla… A “res publica”, a coisa pública, torna-se imediatamente propriedade privada, de pessoas, de grupos e de corporações.

Por que um partido quer cargos no Executivo? Se fosse para ajudar a governar seria uma maravilha, mas geralmente é para empregar parentes, correligionários, e aplicar recursos, comprar e vender, levando a inevitável comissão, a propina, aquilo que os líderes partidários chamam eufemisticamente de “estrutura”. Que não se ofereça a essa gente ministérios sem “estrutura”. Recusarão, ofendidos.

Como os negócios públicos precisam gerar recursos privados para as campanhas eleitorais e bolsos pessoais, surge então a figura do doleiro, do “laranja”, da empresa fantasma que receberá e distribuirá as propinas – e acabarão nas páginas dos jornais, porque existe imprensa livre nessa democracia, nem sempre porque um grande jornalista descobriu a tramoia, mas porque um inimigo político de denunciado vazou documentos ou forjou um dossiê a respeito. Pobres jornalistas… Muitos deles acabam manipulados ou usados no contexto dessa verdadeira guerra entre quadrilhas de politiqueiros e negociantes.

Pobre democracia! Platão, há 2500 anos, já dizia que o castigo dos homens capazes que se recusam a participar das questões governamentais é viver sob o domínio dos homens incapazes. Hoje em dia, incapazes de serem homens públicos, porque são muito capazes para tocar seus negócios. Donde infelizmente são raros – existem, mas são raros – os homens capazes, íntegros que se interessam por política e pela gestão pública. Nem tudo está perdido.

Na política em si os íntegros e capazes são mais raros do que na estrutura burocrática do Estado. Professores, intelectuais, economistas, engenheiros, sociólogos, gente de boa qualidade em geral não quer “sujar as mãos” na política. 

Daí que os quadros são tão mediocres no chamado “baixo clero” dos parlamentos ou tão espertos no “alto clero”, ali onde estão os poucos que realmente mandam, fazem e acontecem. Na burocracia existe, felizmente, um quadro capaz – mas em geral desestimulado ao ver que acabam dirigidos por políticos ou indicados de políticos cujos interesses não serão jamais aqueles que deveriam interessar aos bons gestores.

Até aqui falamos de negócios. Agora falaremos dos confortos, das chamadas mordomias. No Brasil, ser vereador, deputado estadual, deputado federal, senador, ministro ou juiz de altas cortes implica ter geralmente um salário que pode não ser escandaloso – um juiz do Supremo Tribunal Federal ou um ministro de Estado não ganha mais do que 12 mil dólares por mês, que não chega a ser um absurdo para tão altas funções – mas além disso têm automóvel, motorista, assessores, jatinhos, diárias, férias prolongadas, viagens internacionais, verbas extras, moradia em mansaes e até palácios.

Tudo o que aqui disse, então, serve para nos levar ao seguinte: ao ler esse espantoso livro de Claudia Wallin sobre a Suécia, parece que estamos lendo um livro de ficção científica, sobre um país utópico qualquer. Mas como isso pôde ser possível? Como a democracia pôde se consolidar naquele país gelado, habitado no passado remoto por um bando de selvagens louros que a lenda desenhou vestindo peles e usando chifres na cabeça?

História. Educação. Reforma Política. Construção e defesa de Instituições sólidas. A Suécia, há menos de 100 anos, era um país pobre, mas habitado por um povo determinado a sair da pobreza e do atraso. E conseguiu. O segredo – que não9 é segredo – é sempre o mesmo: investimento em educação, ciência, tecnologia, justiça, projetos nacionais integrados, que levam ao desenvolvimento com igualdade e justiça social.

Assim como é fascinante ler este livro, é desanimador concluir que ainda falta muito, mas muito mesmo, para o Brasil atingir um nível de civilização que nos permita ombrear com as democracias de verdade. Sem reforma política – por uma comissão Independente, pois o Congresso  atual não o fará – e sem investimento em educação, nada ou pouco se obterá.

Ler e refletir sobre este livro de Claudia Wallin pode ser um bom começo.   

EMEDIATO, L. F. Viva a Suécia. Pobre Brasil ! Prefácio. In: WALLIN Claudia. Um País sem excelências e mordomias. São Paulo: Geração, 2014. 343 p.